terça-feira, 16 de maio de 2017

Dia da mãe

Apesar de termos festejado no primeiro domingo de Maio (como em Portugal), ontem foi Muttertag (dia da mãe) na Alemanha. Senti-me muito, muito grata por ter os meus filhos ao meu lado e as minhas preces foram para quem ainda não tem essa benção. Este é um dia difícil para todas elas, imagino eu ou melhor não imagino porque certas coisas só vivendo. No entanto, elas devem tentar olhar para o lado bom da vida e passar este dia da melhor forma possível: com as mães, maridos, família ou amigos, quem as faz felizes.

Hoje vou falar sobre a FIV com microinjeçao intra-citoplásmatica de espermatozóides que fiz na minha luta contra a infertilidade (aconselho a leitura deste post e deste):
  • Fertilização in vitro com microinjeção  intracitoplasmatica de espermatozoides
Procedimento- a FIV consiste num procedimento em que a junção dos ovócitos e dos espermatozóides ocorre em laboratório e o objetivo é obter o blastocisto que será depois transferido para o útero. Basicamente, nalguns dias específicos a mulher toma uma injeção subcutânea com uma determinada dosagem de um medicamento líquido e vai fazendo ecografias para acompanhar a evolução dos ovócitos (como neste caso queremos uma maior quantidade de ovócitos a dose tem que ser ajustada frequentemente). Quando os folículos (que contem os ovócitos) tiverem as dimensões certas (de 18mm a 22mm, aproximadamente) marca-se a colheita e, no dia anterior a mulher toma uma nova injeção de outro medicamento pregnyl que estimula a maturação dos ovócitos. A colheita dos mesmos é feita mediante uma leve anestesia geral em que o médico retira os ovócitos com uma agulha, sendo guiado pela imagem da ecografia. Estes ovócitos vão para o laboratório onde ficam 2 a 4 horas em condições especiais. Entretanto, o homem tem que por masturbação fazer a colheita do esperma que será sujeito a um tratamento especial para seleccionar os mais competentes para a fecundação. Se o espermograma tiver revelado valores muito baixos na qualidade e quantidade de espermatozóides opta-se por introduzir o espermatozóide diretamente no citoplasma (a parte interna da célula) do ovócito. A partir deste ponto, espera-se que se forme o zigoto e depois um blastocisto que será transferido para o útero após 2 a 5 dias da colheita dos ovócitos. Esta transferência é um processo simples feito sem anestesia em que os blastocistos (1, 2 ou 3- conforme a idade da mulher e a qualidade dos blastocistos) são colocados na cavidade uterina com a ajuda de um fino tubo de plástico especial.  Passados 14 dias será feita a analise sanguínea à Beta-hcg para detetar uma possível gravidez.

Preço- Este procedimento é caro, estando os valores entre 3500 euros e 4500 euros. Convém fazer um acordo com a clínica em que todo o processo esteja incluído neste preço porque, pagando à parte todas as consultas e ecografias, poderá tornar-se mais dispendioso. No entanto, as medicações são todas compradas na farmácia e pagas à parte e são bastante dispendiosas, na ordem dos 100 euros. Se juntar as viagens que tem que fazer até à clínica o processo pode atingir os 5000 euros. No público, o procedimento é grátis  mas tem a desvantagem de ter listas de espera extensas que podem atrasar o início do processo até 2 anos.

Percentagens de sucesso- as percentagens de sucesso têm vindo a aumentar passando de 30 % para quase 50 %. Isto deve-se à melhor preparação dos profissionais de saúde e, em caso de utilização de técnicas mais avançadas e custosas, pode até chegar aos 70%. Estas técnicas são a análise da recetividade endometrial e a biópsia embrionária. A primeira consiste na análise do endométrio (parede do útero) para saber qual a melhor altura para transferir o embrião e a segunda na analise genética do embrião para seleccionar qual o mais capaz de se implantar no útero e resultar numa gravidez. No entanto, estas técnicas só são utilizadas em casos especiais de  falhas recorrentes na FIV.

Minha experiência- Todo o tratamento é desgastante, física (a colheita dos ovócitos foi um processo incomodo no pós) mas principalmente psicologicamente: o que me custou mais foi a ansiedade no final e os dias que custaram a passar. As hormonas em quantidade que introduzi no corpo provocaram-me um pouco de instabilidade e picos de humor . A primeira vez que dei as injeções a mim própria foi complicado mas a impressão é maior que a dor. Note-se que deve fazer uma prega na barriga e, muito importante, ter um movimento rápido. Na minha altura, as dosagens de puregon eram feitas com a caneta e eram muito simples de executar. Os meus folículos desenvolveram-se bem, mesmo com doses baixas mas após a colheita (tive que ir em jejum) senti umas picadas na barriga e fiquei meia tonta, aconselho a levarem alguém para conduzir, normalmente o marido que também tem que estar presente. Sai da clínica e retomei a minha vida normal. Todos os dias recebia a chamada dos técnicos a informar que os blastocistos estavam a evoluir bem.  Comecei também nesta altura a colocar umas bolinhas de progesterona na vagina para preparar o endométrio para receber o blastocisto. Como os meus blastocistos evoluíram bem, a transferência ficou marcada para o quinto dia após a colheita. Chegamos à clínica muito confiantes e a transferência correu muito bem, Bebi bastante água antes e fiquei deitada cerca de 1 hora depois. Só me foi transferido um embrião porque tinha 31 anos, estava com principio de hiperestimulação ovárica e os médicos não arriscaram. Depois fiquei em casa os 14 dias seguintes num repouso relativo. Os sintomas de gravidez eram picadas no ventre e barriga inchada. Até senti enjoos e impressão nos mamilos mas penso que estes eram psicológicos. Lembro-me que a minha mãe, que veio para o pé de mim, me fazia a comida que eu queria comer e li o livro O rapaz de olhos azuis de Joanne Harris naquelas tardes de tédio no sofá. Não naquele mês mas no seguinte tive a surpresa da minha vida, uma gravidez da rapariga de olhos azuis mais linda do mundo (acho eu que sou mãe dela).






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