Emigrantes
Via os pés inchados da minha mãe e o seu desespero quando se avizinhava uma enxaqueca provocada pelos barulhos das máquinas na fábrica. Observava as costas curvadas do meu pai e a aspereza das suas mãos cravejadas de calos provocados pelo manejar repetitivo das ferramentas.
- Estuda para nao ires para tras de um balcão!
- Agarra-te aos livros para seres alguém na vida!
- Aplica-te para teres uma vida diferente da nossa!
Cresci a ouvir isto e acabei por acreditar nestas palavras. Segui o conselho de quem sabia muito mais do que eu. Depois de tanto sacrifício tinha o tão desejado canudo mas vi todas as promessas também por um canudo.
Os dias continuavam iguais, naquela mesmice de sempre, mas já não podia ver os meus pais sobrecarregados com as minhas despesas, na mesma labuta diária.
O meu colega que tinha ido para fora sugeriu-me um site de emprego onde me perdi na pesquisa. Viver e trabalhar fora de Portugal... Nunca pensei nisso, certo como estava do futuro risonho prometido!
Notei-me cheio de curiosidade e com vontade de aceitar o desafio. Estava pronto, um clique pôs tudo a mexer e rapidamente estava de malas prontas no aeroporto.
Os meus pais estavam de rastos, ver o seu único filho partir partia-lhes o coração.
Disfarçavam conforme podiam e, encorajadores, diziam-me que tudo ia correr bem. Naquele momento, estava eu vazio de coragem e cheio de vontade de me esconder debaixo das saias da minha mãe.
O trabalho novo, a casa nova, os colegas novos, uma realidade totalmente nova!
O faz tudo era eu e as línguas que falava ajudavam-me a cumprir tudo na perfeição.
Usava o trabalho e os momentos de lazer com os novos amigos para esquecer e matar as saudades. Também eu estava a ficar esquecido, nos e.-mails cada vez mais espaçados ou nos comentários às minhas fotos no facebook esporádicos ou quase inexistentes.
Gradualmente, ia-me sentindo melhor e aquela independência era um sentimento estranho e empolgante. Ao fim de seis meses, quando voltei, o miúdo da partida não era o da chegada , eu tinha mudado e também a minha visão do mundo. O meu olhar era critico, o dedo apontado e a desigualdade entre dois mundos totalmente diferentes era cada vez mais notória.
Ao fim de algum tempo no meu país, estranhamente, detetei em mim a inquietude, a ansiedade por voltar ao país que a cada dia se ia tornando mais meu...
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