sábado, 20 de agosto de 2016

Todas as profissões têm momentos: momentos de conquista, tristeza, deceção, felicidade, alegria, ternura, surpresa, raiva, cansaço, fracasso, perda, entusiasmo, paciência  mas existem momentos que nos marcam especialmente.
Tinha casado num dia em que tudo me pareceu perfeito e estava em lua de mel na República Dominicana (estava tão feliz) quando fui colocada numa pequena vila perto de Lisboa.

Era a minha profissão (ingrata e cheia de vicissitudes mas a que escolhi), a mudança difícil foi feita mas o entusiasmo por ir conhecer uma nova realidade nunca me abandonou. Já instalada, quatro turmas do básico (barulhentos e irrequietos, como sempre são), um cargo de secretária de uma das turmas e outras tarefas. Os fins de semana eram esperados com ansiedade, as semanas sucediam-se e o ano corria sem grandes sobressaltos.

Uma manhã, estava na sala dos professores quando entra a Florinda (uma das directoras das turmas nas quais lecionava). Vinha com passo acelerado (como sempre) mas algo nos seus modos e feições estava diferente. Aproximei-me, questionei-a e a sua resposta foi paralisante e perturbadora. Logo o Gonçalo, aquele menino pequeno que tinha acabado de completar 13 anos, frágil e franzino, cabelo liso que lhe caia sobre a testa numa madeixa alinhada, olhos escuros e vivos, com perguntas inteligentes que revelavam uma mente brilhante, apesar de não o demonstrar nas notas.. Apeteceu-me abraça-lo e conforta-lo, protege-lo de tudo e todos, leva-lo para outra realidade onde continuasse a ser aquele menino doce e privilegiado, filho único e mimado de pais favorecidos pelo dinheiro e pela capacidade de amar incondicionalmente o seu descendente.
Ouvi as palavras restantes muito ao longe e imediatamente, sem que me fosse sequer sugerido,  lhe disse que a acompanhava. Fomos para o espaço exterior, onde adolescentes se juntavam em grupinhos aos risinhos ou em conversas , na sua maneira típica de agir. Procuramos com o olhar sem parar de caminhar, voltamos a procurar e nada. Chamou-nos a atenção uma miúda que caminhava e chorava, a Florinda instantaneamente se dirigiu a ela e perguntou pelo Gonçalo.

Subitamente, apareceu o Gonçalo a correr, ladino e despreocupado como sempre (chegamos a tempo!- alívio), dissemos-lhe que tinha que nos acompanhar (ele era bastante perspicaz e  percebeu rapidamente que algo não estava bem ) a uma sala e a restante conversa foi difícil, penosa, dolorosa, excruciante...  

O Gonçalo chorou demorada e copiosamente, eu chorei (tentei que ele não me visse a fazê-lo mas foi inevitável), até posso jurar que vi uma lágrima na face da professora experiente e, por vezes, um pouco dura que estava connosco na sala.

O pai do Gonçalo que o tinha deixado na escola às 8h15m e se despediu com o beijo habitual e fugaz (o filho não gostava que os colegas vissem estas demonstrações de carinho entre pai e filho) caiu inanimado no trabalho. Teve morte imediata e imediata foi também a condição de órfão de pai do Gonçalo. Este superou, é hoje um jovem feliz e alegre com 22 anos. Quanto a mim, já tive outros Gonçalos mas nenhum tão especial como aquele menino esperto e cheio de vida.
Claro que a galinha do vizinho é sempre melhor que a minha, no entanto, não classifiquem tão levianamente as profissões. Existem momentos dificeis em todas elas, a maneira como os encaramos ou os recordamos é que os tornam melhores ou piores.

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