Moçambique
A chegada ao pais foi uma experiência brutal. O bafo quente ao sair do avião foi asfixiante e, como não tinha tratado do visto em Portugal (preenchi um papel a indicar qual a finalidade da visita e a morada da estadia e paguei 10 euros), ainda demorei algum tempo antes de me deixarem sair do aeroporto.
Nunca esquecerei o caminho até casa. As pessoas, as habitações, o lixo, a sujidade, as estradas, os artigos para venda no chão em cima de um pano, os passeios inexistentes e aquele turbilhão de gente (muitas crianças) a caminhar na beira da estrada. Odiei tudo. Fiquei mal impressionada com tudo o que vi, era tudo tão diferente, tão pobre e triste.
Depois de uma semana quando comecei a sair e a ver outras coisas, a minha opinião foi mudando. Comecei a ver que as crianças pediam na estrada com um ar lastimoso mas, quando virávamos costas, estavam a brincar e a rir felizes. As pessoas eram livres, alegres, havia festa todo o fim de semana, o clima era bom, no geral, a comida era suficiente para todos. Claro que não havia luxos e que as pessoas precisavam de mais condições de habitação, medicas, sanitárias e outras, mas eram felizes. Felicidade é uma palavra que caracteriza bem o povo moçambicano, tão diferente deste sisudo e carrancudo povo alemão. Parando para pensar, o meu marido já viveu em países diametralmente opostos, Moçambique e Alemanha, a selva e o deserto, não sei qual deles mais selva ou mais deserto.
Tivemos experiências ótimas, algumas chocantes, outras tristes outras simplesmente divertidas.
Uma vez, vimos um homem estendido no chão que tinha morrido num acidente de mota e ninguém o cobriu, já estava meio despido porque, entretanto outros apoderaram-se das suas roupas e sapatos.
Quando estivemos em Inhambane hospedados num lodge que ficava na praia (o local parecia uma língua de terra no mar) e só tínhamos como ligação à cidade uma estrada de terra batida que, de noite ficava coberta pelas águas dum pântano e num lodge vizinho houve uma explosão seguida dum grande incêndio. Eu fiquei aflitissima porque o telhado da casinha onde estávamos era coberto de palha. eu disse ao meu marido, primeiro que deviam ser foguetes e depois que os bombeiros já vinham e ele riu-se. O guarda noturno estava supertranquilo, com um sorriso despreocupado disse-me para ir dormir mas eu fiquei acordada até o fogo se extinguir completamente.
Em Inhambane, apercebi-me quando visitei outras praias que eles enterravam os mortos naquele local e, sem querer estava sem cima de uma sepultura improvisada.
Um velhote, idoso como nunca vi lá, fez-nos sinal de paragem com um ar superior, paramos, eu indiquei-lhe para entrar para a cabine e ele subiu para a caixa de mercadorias (é habito andarem atrás). Quando o deixei, apertei-lhe a mão, um ancião que devíamos respeitar.
Por outra vez, paramos para dar boleia a uma jovem mulher que ia carregada e de repente subiu tanta gente para a caixa traseira que não sabíamos se a carrinha aguentaria.
O E num local recôndito encontrou um homem sem roupa nem eletricidade mas com um telemóvel a perguntar quando chegava a rede.
No inicio do mês os supermercados a abarrotar de gente e os carrinhos enchiam-se a uma grande velocidade. no fim quase não havia ninguém.
A empregada da casa, tão humilde e calada, que ouvia o que dizíamos ao almoço entre nós e no dia seguinte ia pedir a varinha mágica à vizinha para fazer a comida como tínhamos dito (comoveu-me a maneira como me agradeceu quando escrevi que podia levar umas roupas do antigo inquilino, só assim a deixavam sair do prédio com elas, na segunda vez que fui, levei mesmo roupa para ela e para os filhos).
O acidente grave que o E teve provocado por um camião que estava parado na faixa de rodagem e não estava sinalizado (de noite não o viu).
Aquele fim de semana na Ilha de Inhaca (tanto medo ao entrar naquele avião minúsculo) em que vimos como as mulheres apanhavam os caranguejos na praia e em que colocamos o ar condicionado no máximo para dormirmos bem cobertos protegidos dos mosquitos.
As condições sanitárias do mercado do peixe em Maputo assustavam qualquer um: terra batida, toldes a proteger do sol, bancas de madeira velha, sem qualquer sistema de refrigeração. No entanto, o peixe e marisco que trouxe foram dos melhores que já comi.
O mercado do pau também vale a pena visitar, das capulanas, aos batiques, às estatuetas de madeira. Todos os sábados negocia-se ali todo o tipo de artesanato moçambicano. Trouxe de lá peças bem interessantes.
A moeda moçambicana é o metical (neste momento, o câmbio está a 84,28 MT=1 euro) e convém negociar bem porque os preços para turistas são muito diferentes. Tenha cuidado com os levantamentos de dinheiro nas caixas automáticas (multibanco) porque, por duas vezes, pagamos quase tanto de taxas como o próprio levantamento. Maputo tem alguns bons restaurantes relativamente baratos mas recomendo especialmente o Zambi (sobremesas e pão de alho de entrada) e o Cristal (caranguejo de entrada e galinha com coco e arroz- galinha à cafreal) pela comida, pelo atendimento e pelo ambiente (todas estas dicas datam de 2008 e 2009, quando lá estive) . Ficam estas fotos que seleccionei das inúmeras que tirei por lá (colocarei mais)...
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