Escrevo estas linhas de pés descalços sentada numa manta no chão. À minha volta grupos de pessoas desfrutam o ar livre, o domingo solarengo em Berlim. Dum lado um grupo de jovens em que domina o italiano, doutro um conjunto de adultos com crianças em que se ouve uma mescla de espanhol e alemão. Ao fundo, um aglomerado de mulheres com o cabelo coberto, outras literalmente de olhos em bico e outras de cabelos dourados destapadas a aproveitarem os raios deste sol quente de Maio. Uns jogam animadamente com uma bola, outros conversam despreocupados, outros praticam uma arte marcial qualquer, outros (como eu) usufruem a paz deste lugar barulhento. Quase todos grelham (estamos na parte do parque autorizada para esse efeito) mas uns têm grelhadores sofisticados e brilhante, outros simples e normais e até há quem use dos descartáveis e uns grelham salsichas e tiras da barriga, outros tudo menos porco e outros apenas legumes. Há quem beba cerveja ou vinho, refrigerantes ou só bebidas naturais.
Reparo num homem a caminhar sozinho e percebo que pede, por gestos, um isqueiro ou fósforos a alguém do grupo vizinho que, num gesto simpático, lhe passa o isqueiro.
Pessoas passam: famílias monoparentais, famílias numerosas, interraciais ou com casais do mesmo sexo, pessoas sozinhas passeiam cães, correm ou andam de bicicleta. Algumas caminham muito bem arranjadas, envergam fatos domingueiros, outras roupas casuais e há quem vista confortáveis fatos de treino. Uns calvos, por opção ou não, outros penteado risca ao lado e alguns possuem cabelos longos. Há quem exiba na pele queimada pelo sol ou branca como marfim tatuagens, cicatrizes ou perciengs.
Chamam-me atenção as crianças (entre elas a minha filha) que brincam ruidosamente, algumas com traços tipicamente alemães, noutras predominam os espanhóis e outras misturam-os de uma forma surpreendente mas todas se entendem num alemão, portunhol improvisado. Eu despudoradamente amamento o meu filho enquanto ao meu lado passam homens árabes que não olham nem comentam.
Respiro fundo, o ar entra para me apaziguar e entorpecer os sentidos, quero absorver toda esta atmosfera, este clima que reina aqui. Respiro mais uma vez, profunda e pausadamente, e fecho os olhos.
O Homem é capaz do melhor e do pior. Assim como todas as pessoas encerram em si um monstro e um anjo. Não acredito em bondades e maldades totais. Acredito no Homem com tudo que essa palavra carrega e na capacidade de redimir, mudar, reinventar, transfigurar, alterar, transformar. Sim, é possível. É possível transformar o horror, a guerra, a morte, o ódio, a vingança em Tolerância, Respeito, Generosidade, Fraternidade, União, Solidariedade...
Sou levada de volta ao espaço físico onde me encontro. Continuo em Berlim, no melhor de Berlim...
Sem comentários:
Enviar um comentário