quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Moçambique
A chegada ao pais foi uma experiência brutal. O bafo quente ao sair do avião foi asfixiante e, como não tinha tratado do visto em Portugal (preenchi um papel a indicar qual a finalidade da visita e a morada da estadia e paguei 10 euros), ainda demorei algum tempo antes de me deixarem sair do aeroporto.
 Nunca esquecerei o caminho até casa. As pessoas, as habitações, o lixo, a sujidade, as estradas, os artigos para venda no chão em cima de um pano, os passeios inexistentes e aquele  turbilhão de gente (muitas crianças) a caminhar na beira da estrada. Odiei tudo. Fiquei mal impressionada com tudo o que vi, era tudo tão diferente, tão pobre e triste.
Depois de uma semana quando comecei a sair e a ver outras coisas, a minha opinião foi mudando. Comecei a ver que as crianças pediam na estrada com um ar lastimoso mas, quando virávamos costas, estavam a brincar e a rir felizes. As pessoas eram livres, alegres, havia festa todo o fim de semana, o clima era bom, no geral, a comida era suficiente para todos. Claro que não havia luxos e que as pessoas precisavam de mais condições de habitação, medicas, sanitárias e outras, mas eram felizes. Felicidade é uma palavra que caracteriza bem o povo moçambicano, tão diferente deste sisudo e carrancudo povo alemão. Parando para pensar, o meu marido já viveu em países diametralmente opostos, Moçambique e Alemanha, a selva e o deserto, não sei qual deles mais selva ou mais deserto.


Tivemos experiências ótimas, algumas chocantes, outras tristes outras simplesmente divertidas.
Uma vez, vimos um homem estendido no chão que tinha morrido num acidente de mota e ninguém o cobriu, já estava meio despido porque, entretanto outros apoderaram-se das suas roupas e sapatos.
Quando estivemos em Inhambane hospedados num lodge que ficava na praia (o local parecia uma língua de terra no mar) e só tínhamos como ligação à cidade uma estrada de terra batida que, de noite ficava coberta pelas águas dum  pântano e num lodge vizinho houve uma explosão seguida dum grande incêndio. Eu fiquei aflitissima porque o telhado da casinha onde estávamos era coberto de palha. eu disse ao meu marido,  primeiro que deviam ser foguetes e depois que os bombeiros já vinham e ele riu-se. O guarda noturno estava supertranquilo, com um sorriso despreocupado disse-me para ir dormir mas eu fiquei acordada até o fogo se extinguir completamente.
Em Inhambane, apercebi-me quando visitei outras praias que eles enterravam os mortos naquele local e, sem querer estava sem cima de uma sepultura improvisada.
Um velhote, idoso como nunca vi lá, fez-nos sinal de paragem com um ar superior, paramos, eu indiquei-lhe para entrar para a cabine e ele subiu para a caixa de mercadorias (é habito andarem atrás). Quando o deixei, apertei-lhe a mão, um ancião que devíamos respeitar.
Por outra vez, paramos para dar boleia a uma jovem mulher que ia carregada e de repente subiu tanta gente para a caixa traseira que não sabíamos se a carrinha aguentaria.
O E num local recôndito encontrou um homem sem roupa nem eletricidade mas com um telemóvel a perguntar quando chegava a rede.
No inicio do mês os supermercados a abarrotar de gente e os carrinhos enchiam-se a uma grande velocidade. no fim quase não havia ninguém.
A empregada da casa, tão humilde e calada, que ouvia o que dizíamos ao almoço entre nós e no dia seguinte ia pedir a varinha mágica à vizinha para fazer a comida como tínhamos dito (comoveu-me a maneira como me agradeceu quando escrevi que podia levar umas roupas do antigo inquilino, só assim a deixavam sair do prédio com elas, na segunda vez que fui, levei mesmo roupa para ela e para os filhos).
O acidente grave que o E teve provocado por um camião que estava parado na faixa de rodagem e não estava sinalizado (de noite não o viu).
Aquele fim de semana na Ilha de Inhaca (tanto medo ao entrar naquele avião minúsculo) em que vimos como as mulheres apanhavam os caranguejos na praia e em que colocamos o ar condicionado no máximo para dormirmos bem cobertos protegidos dos mosquitos.
As condições sanitárias do mercado do peixe em Maputo assustavam qualquer um: terra batida, toldes a proteger do sol, bancas de madeira velha, sem qualquer sistema de refrigeração. No entanto, o peixe e marisco que trouxe foram dos melhores que já comi.
O mercado do pau também vale a pena visitar, das capulanas, aos batiques, às estatuetas de madeira. Todos os sábados negocia-se ali todo o tipo de artesanato moçambicano. Trouxe de lá peças bem interessantes.
A moeda moçambicana é o metical (neste momento, o câmbio  está a 84,28 MT=1 euro) e convém negociar bem porque os preços para turistas são muito diferentes. Tenha cuidado com os levantamentos de dinheiro nas caixas automáticas (multibanco) porque, por duas vezes, pagamos quase tanto de taxas como o próprio levantamento. Maputo tem alguns bons restaurantes relativamente baratos mas recomendo especialmente o Zambi (sobremesas e pão de alho de entrada) e o Cristal (caranguejo de entrada e galinha com coco e arroz- galinha à cafreal) pela comida, pelo atendimento e pelo ambiente (todas estas dicas datam de 2008 e 2009, quando lá estive) . Ficam estas fotos que seleccionei das inúmeras que tirei por lá (colocarei mais)... 

























sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Quando cheguei a casa depois de uma semana em Portugal a tratar duns assuntos, encontrei este poster no meu corredor:

 Uns dias depois, quando fui deitar a minha filha e depois de ler a história, ela começou a chorar e eu perguntei o que se passava e ela disse:
_ Estou a chorar de felicidade!
Quando a questionei sobre o motivo, ela respondeu-me:
-Estou feliz porque a mamã está de volta!
Dei-lhe um abraço e os meus olhos também se encheram de lágrimas.









domingo, 9 de outubro de 2016

A Maria Inês tem 5 anos. Ela é obediente e tímida, introvertida e fechada. Com as pessoas certas é muito carinhosa e meiga mas costuma limpar os beijos porque aqui na Alemanha não gostam de beijos e os colegas na escola fazem o mesmo. 

É preguiçosa, adora que a vistam e dispam e que lhe coloquem a comida na boca, demora eternidades a fazê-lo e estamos sempre a dizer para se despachar. 

Adora ir para o ballet, cantar, dançar e ver desenhos animados. 

No inicio do Verão começou com os medos, tem medo de  cobras, de escorpiões, de insetos e até diz que, de noite, quando olha para os casacos pendurados lhe parece um homem e fica cheia de medo. Temos que ter cuidado com o que dizemos à frente dela, tentar transmitir-lhe confiança e a minha mãe no Verão falava-lhe do anjinho da guarda antes de ir dormir, o que a acalmava muito (nós temos continuado).

Nota-se que tem ainda uma resistência à chegada do irmão e que ainda tem sentimentos contraditórios em relação a ele. Gosta de brincar com ele mas, por outro lado, tenta ter atenção, diz que gostava de ser um bebé e fala como um.

Escreve bem o nome dela, reconhece as vogais e algumas letras, conhece quase todos os números e consegue desenha-los. Pinta bem mas não desenha bem. Adora fazer exercícios de encontrar o caminho, de diferenças e de colar autocolantes. Gosta de ajudar nas tarefas domésticas e fá-lo bem.

É muito responsável e preocupada. Na noite antes de ir ao ballet pela primeira vez diz que não dormiu a pensar nisso e foi um pouco empurrada porque, até ao fim da primeira aula, dizia sempre que não queria.Não gosta de mudanças e fica nervosa e insegura quando tal acontece. Essa insegurança e o perfeccionismo dela faz com que nem tente fazer as coisas e diga à partida que não vai conseguir. Já apertou os cordões dos sapatos várias vezes mas, se não consegue à primeira, fica irritada e diz logo que não vai conseguir. 

É uma vorschule Kind (pré-escolar) e essa insegurança e timidez estão a prejudica-la na escola. Está um pouco atrasada na língua porque só brinca com os meninos pequenos, os quais entende mais facilmente e descobri porque não come na escola: disse-me, depois de muita insistência minha e de algum choro da parte dela, que não sabe comer como as outras meninas de garfo e faca. Para a idade dela acho que ela tem muita preocupação com tudo, tem muita auto critica e compara-se muito com as outras e o pior de tudo diz que elas são mais espertas. Este sentimento só pode advir do fato de ter chegado à escola com 3 anos sem falar uma palavra de alemão e, também da educação que teve mais à portuguesa, em que toda a gente lhe fazia tudo numa tentativa de a poupar e de lhe facilitar a vida. Isso aqui na Alemanha, um país em que as crianças se começam a vestir aos 18 meses e, no primeiro ano são incentivadas a ir sozinhas para a escola, não é muito comum. 

Espero que esta situação não venha a marcar a personalidade da minha Inês e ela possa ultrapassar este sentimento de inferioridade que ela tem.

Está alta e magrinha com umas pernas longas, cara comprida e com um leve tom rosado com uns lábios vermelhos muito bem desenhados. Tem os olhos mais lindos do mundo.






sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Eduardo faz hoje 18 meses. Está um reguila, sobe a sofás e cadeiras e quer subir a mesas. Imita todos e percebe bem o que se diz e também se faz entender, comunica muito bem. Quando há algo que ele não pode pegar,  aponta e depois com o dedito assinala que não mas, por vezes, apanha-nos distraídos e pega mesmo. Não fala mas palra imenso na sua própria língua (algumas palavras já percebo sapato, pato, tá aqui, mama, papá, mana, anda). Aponta, pega-nos na mão e puxa-nos quando quer alguma coisa. É querido e meigo mas intempestivo, quando contrariado é estalada e pontapé para todo o lado. Com a irmã tanto anda aos beijinhos e abraços como às puxadelas de cabelo e empurrões (nestes últimos dias tem melhorado). Chora para entrar no banho (odeia chuveiro) e para sair, adora brincar com água. Mete tudo no balde de limpar o chão e até tenta meter o próprio pé. Não come muito, não tem muito apetite mas adora provar tudo (fica no nosso colo a petiscar quando comemos). É muito curioso, desarruma prateleiras e gavetas, com ele a casa nunca está arrumada. Atira as coisas para longe e já atingiu algum de nós. Ao contrário da irmã, tem uma tendência natural para os homens, com estes a empatia é automática. É bem disposto mas tem um acordar complicado, principalmente se não dormiu tudo. Custa-lhe adormecer e por vezes desisto e trago-o de volta à sala mas a sesta da tarde é sagrada.  Adora musica e dançar, gosta que as pessoas se riam dele, faz muitas palhaçadas. Nos últimos meses, deu um pulo: media com 17 meses e meio 81cm mas pesava apenas 9kg e meio. Tem 7 dentes e, depois dos quatro incisivos (2 em cima e 2 em baixo), apareceram os molares.  Quando me chateio com ele, procura o contato visual e sorri como que a pedir desculpa. Se estou mesmo zangada e lhe ralho, faz beicinho mas se lhe der colo logo a seguir ele aceita e agarra-se a mim. Sempre foi de sorriso fácil e tem as gargalhadas mais deliciosas do mundo.


É frustrante tentar descrever os meus sentimentos pelos meus filhos porque quanto mais falo mais fica por dizer. O que sinto é tão gigantesco e ilimitado que chamar-lhe só amor é subtrair-lhe grandeza. É assim mais ou menos como falar do sistema solar e querer falar do universo...