Irei fazer a descrição do meu parto na Alemanha enquanto ainda recordo os pormenores mas encontrei no diário da gravidez, o resumo do meu primeiro parto, em Portugal na Clipovoa no dia 3 de Agosto de 2011.
O
teu nascimento foi fácil, entramos às 10h15m (atrasados, como sempre, talvez
por algum receio meu e preocupação em levar tudo). Uma auxiliar veio buscar-nos
à recepção, descemos de elevador, eu, o teu pai e uma mulher que ia fazer uma
operação a um mioma no útero. Fui para a sala de dilatação toda em tons de
verde e a enfermeira disse estava a ver que não vinham. Deu-me uma caixinha com
uma coisinhas para ti e disse para me vestir, deu-me uma bata verde. O teu pai
entretanto foi colocar as malas no quarto, eu fui fazer um clister na casa de
banho e demorei um pouco, uma auxiliar bateu à porta a perguntar se estava tudo
bem. Estava tudo bem comigo mas o receio do desconhecido estava a tomar conta
de mim. Fui então para a sala, a enfermeira colocou-me o soro na mão e depois
fez-me o toque. Foi o mais doloroso em todo o teu nascimento. Com aquelas mãos
enormes ela introduziu-me um dedo e mexeu, parecia que chegava à garganta. Eu
não me manifestei, apenas fiz uma cara de horror enquanto olhava para o teu
pai. Ele só se ria da situação mas realmente agora vejo que não doeu muito mas
a surpresa foi muito grande, não esperava aquilo porque estava habituada aos
toques da Doutora Clara. A enfermeira Helena só disse é só isto que vai custar,
eu não acreditei mas afinal era verdade. Entretanto, na sala ao lado ouvia-se
uma parturiente a gemer mas não era de dor, era de estar a fazer força, o teu
pai só disse tu não devias estar a ouvir isto mas eu sentia uma calma ansiosa,
uma calma agitada, uma calma impaciente, uma calma estranha. Quando aquele
ruido parou, ouviu-se outro, baixinho e muito contido, a menina do quarto ao
lado tinha nascido, era a Matilde…
Fui
para o bloco para levar a epidural, ainda fiquei um pouquito à espera na sala
de recobro mas a dor não apertava muito, era controlável, estava tudo na boa. O
doutor Gonçalo veio e com ele a epidural. Depois fui para a sala de dilatação e
a enfermeira viu e disse que a dilatação aumentou muito. Entretanto, pedi um
pouco mais de epidural, tendo sido prontamente atendida pelo doutor Gonçalo e
senti um novo alívio. Passado algum tempo, chegou a doutora Clara e elas
colocaram o apoio para as mãos e de vez em quando diziam faça força, isto 3 vezes e tu
nasceste. Lembro-me que quando tu nasceste eu chorei, as emoções
suplantaram-me, foram mais fortes que eu. Eu que sou sempre tão contida e
racional, não pude controlar-me naquele momento. Senti que uma parte do meu
coração tinha saído de mim e estava naquele ser que eu amava profundamente. Naquele
dia, 3 de Agosto de 2011, às 15h45m, um choro forte invadiu aquele quarto,
posso-te dizer que armas-te um berreiro, muito diferente do bebé do quarto ao
lado. Senti também um grande orgulho em mim, tinha conseguido, tinha corrido
tudo bem. A doutora Clara apertou-me a mão e disse que eu nunca tinha pensado
que correria assim tudo tão bem!!! Eu
nem lhe respondi, tal era o estado de comoção que me arrebatava…
Colocaram
por breves instantes a Inês sobre a minha barriga mas rapidamente a levaram,
ficando no entanto na mesma sala. Só ia ouvindo 2980g e
48cm, apgar 9 ao 1º min e percebi que a neonatologista Carmen te estava a
observar. Estavam também a limpar-te e vestir-te, o teu pai ia tirando fotos e
eu tentava ver-te. O berreiro continuava.
Lembro-me
que a doutora Clara me mostrou a placenta mas um momento que eu recordo até
hoje foi quando finalmente te colocaram sobre o meu peito, acalmaste-te
instantaneamente e ficámos a observar-nos atentamente, como se tirássemos
medidas uma da outra, como se estivéssemos só ali a travar conhecimento, nós
que até há breves minutos eramos uma só. Foi mais um reconhecimento, um esta é
a minha mãe, esta é a minha filhinha amada. Recordo as tuas pálpebras vermelhas,
a tua cara inchada (especialmente lábios e nariz), as tuas mãozitas muito
pálidas, as bolinhas que fazias com a saliva… Para mim, naquele momento eras o
recém-nascido mais lindo do mundo. Eras
perfeita e minha, aliás nossa porque o teu pai também ali estava a tirar fotos
e igualmente enternecido com aquele momento.
Passei
para outra sala onde te colocaram a mamar e foi incrível como imediatamente,
tal qual algo a que estivesses habituadíssima, agarraste o bico pequeno que
tinha e começaste a sugar com uma força que me impressionou. De seguida,
chegaram os teus avós e tia que te viram a mamar e fomos para o quarto.
Na estadia no hospital, dias 3 e 4, dormias de
dia e de noite não sossegavas, não era de estranhar porque na barriga não há
essas diferenças mundanas. Foi difícil ver-te assim e não saber o que fazer,
eramos inexperientes e chamávamos sempre alguém porque pensávamos se chora é
porque não está bem. Novatos nisto da paternidade, queríamos perceber porque
estavas tão agitada, num pranto tão inconsolável. Parece que aquela choradeira
advinha das cólicas, estava a ser difícil libertares o mecónio mas na realidade
nunca saberemos a verdadeira razão.
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