quinta-feira, 23 de abril de 2015


Parto na Alemanha


Quando fui ao hospital no dia 1 de Abril já tinha 1 cm de dilatação, contrações irregulares mas o colo do útero fechado, vim de lá com indicação para muitas caminhadas com o objetivo de acelerar a entrada no trabalho de parto. Os dias foram passando, ia andando bastante mas nada mudava, apenas continuavam as contrações. Julguei que poderia entrar em trabalho de parto no dia 4 de Abril por causa da mudança da lua, a minha irmã insistia no dia 18 porque tinha sonhado. Já andava ansiosa e apesar de ter receio de dar à luz num país estranho, só queria que o meu menino nascesse. Pensei várias vezes que era bom fechar os olhos e ter o meu filho nos braços.
No dia 6 de Abril cerca das 22h30m, estava no sofá sentada com a minha filha quando tive a sensação de algo a rebentar, só tive tempo de me levantar e rapidamente ficou uma poça de água à minha volta. A minha mãe  tentou disfarçar o nervosismo mas disse-me que tinha de ir imediatamente para o hospital, a minha filha muito divertida dizia que a mãe tinha feito xixi nas calças. Fui tomar banho mas desisti rapidamente (cada vez que me mexia, saia mais um pouco de liquido e ficava de novo molhada). Foi no quarto ao vestir-me que reparei que o líquido que saia era verde, sinal da presença de mecónio, o que indica que algo não estaria bem com o bebe. nesse momento, fiquei preocupada, acelerei e vesti-me muito depressa. O caminho para o hospital é curto e sentia-me cada vez mais molhada.
 Toquei na campainha (este hospital tem umas urgências separadas para gravidas  partir das 28 semannas) e veio prontamente uma enfermeira, já com algumas idade a quem tentei explicar o que tinha acontecido. Ela só me perguntou se era primeiro ou segundo parto. Entrei e ligaram-me ao CTG e nesta altura fez-me 2 perguntas, se me importava que viesse um médico homem e se já estava inscrita no hospital (a grávida escolhe o hospital e faz a inscrição prévia para o parto). Veio um jovem de bata branca muito novo que era um médico estudante. Percebi que a enfermeira parteira perguntou-lhe a quantos partos já tinha assistido e ele respondeu que só tinha visto 1. Eu traduzi a conversa para o português e rimo-nos os 2 (eu e o meu marido) quando eu disse que ele tinha tanta experiência como ele.
Entretanto, ficamos sozinhos e lembro-me de olhar para o relógio, passar  das 23h25m e pensar que já não nasceria no dia 6 de abril..  
De seguida, chegou uma médica que falava Inglês, falou comigo sobre os procedimentos e fez-me uma ecografia rápida para ver a posição do bebé que se mantinha cefálica. Perguntei sobre a cor do líquido amniótico e ela respondeu que pelos batimentos cardíacos estava tudo bem com o bebé mas que deve ter passado por algum momento de stress.
De seguida, a enfermeira parteira, (aqui chama-se hebamme) que se chamava Cordula, deu-me uma bata (ao contrário de Portugal as parturientes vestem batas reutilizáveis, em tecido) e caminhei um pouco pelo corredor até uma sala que tinha uma espécie de cama, com uma parte maior e redonda no fundo. Fez-me um novo toque, colocou-me os aparelhos, deu-me indicação para me virar para o lado esquerdo com uma almofada entre as pernas, preparou as roupas do bebé (estes vestem a roupa do hospital). Perguntou-me algo em alemão (ela só falava alemão) e eu respondi não, não tinha percebido mas ela repetiu e compreendi que estava a perguntar-me se queria algo para as dores. Eu respondi sim e ela colocou no cateter um liquido. As dores aí começaram a apertar um pouco e eu pedi a epidural e ela apontou para o líquido que me ia aliviar um pouco as dores. Disse que poderia ficar um pouco tonta e vomitar. Reduziu as luzes (dizem que facilita a dilatação) e disse que se tivesse vontade de puxar para carregar no botão que ela viria (não houve clister nem algália como em Portugal).
Ficamos sozinhos e ai as contrações começaram a ser mais frequentes e dolorosas. Apertava a mão do Eliseu cada vez que elas vinham e toda eu tremia. No auge da dor, lembro-me de pensar porque me fui meter noutra e porque decidi dar à luz aqui e o meu marido perguntou se ainda queria ir ao terceiro. ele estava a tentar fazer-me rir para ver se eu descontraia. Ao fim de mais ou menos cinco contrações, comecei a ter vontade de fazer força e chamei a enfermeira que me tocou novamente, eu já só implorava pela epidural e ela só me respondeu que o bebé vinha já (Baby kommt bald) (adeptos de tudo ao natural, já devia saber que fariam tudo para evitar a epidural). Saiu e voltou acompanhada pela médica e o estudante que ficou só a observar.
Pediram ao marido para segurar a perna que estava levantada e começaram a dizer faça força quando vier a contração (a médica em ingles), Puxei 3 vezes e nada. Mandaram-me colocar de barriga para cima e deram-me indicação para segurar as pernas abertas em cima, fechar a boca, colocar o queixo junto ao peito, e respirar a meio da contraçãp e voltar a fazer força. Fiz isso por duas vezes e começou a aparecer a cabeça. Eu só sentia as mãos da parteira nas minhas partes intímas e um líquido muito quente entre as contrações que ela me aplicava. Lembro-me de a médica me dizer não grite e de eu dizer à medica que não ia conseguir. O E disse-me que o bebé precisava de mim naquele momento e eu fiz-me gigante de uma força descomunal e senti algo muito escorregadio a sair de mim (a parteira fez-me algumas perguntas sobre o meu  parto em Portugal e no fim disse-me: viu como  não foram precisos cortes nem epidural- há pessoas que passam na nossa vida e a marcam tão positivamente).
O bebé não chorou imediatamente e eu perguntei logo o que se passava. Trataram do cordão umbilical e colocaram-no despido em cima do meu peito nu, foi um momento mágico vivido só entre mim e o meu filho.  Aquele peso em cima de mim, aquela pele molhada e escorregadia, aqueles olhinhos curiosos, aquele choro: foi um despertar de sentidos e de emoções dos mais fascinantes que já experimentei. O toque pele com pele dissolveu todas as dores e o sofrimento do parto. O sentimento de amor e proteção foi intenso, instantâneo e indescritível por palavras.  
Depois, a placenta não saiu naturalmente e tive que ir fazer uma raspagem, enquanto o pequeno ficou com o pai que o vestiu. Fui para o quarto às 5h da manha onde me levantei para ir a casa de banho e o pai veio para casa.
Os primeiros dias foram calmos, o Eduardinho não queria mamar mas também não chorava. Eu estava ansiosa por ir para casa e encontrar o conforto e carinho que me faltavam ali. Na quinta feira depois de ser visto pela pediatra, tivemos alta os dois e saímos daquele hospital uma família completa e feliz de quatro elementos.

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