São emigrantes aos milhares.
Lágrimas nos olhos, cabeça baixa de uma dignidade enorme, partem com meia dúzia de peças de roupa numa mala, uns escassos escudos no bolso e a morada do primo guardada no forro do casaco. Aflige-os a incerteza e o medo do desconhecido que combatem com esperança e vontade de vencer. Deixam o país para fugir à miséria e ao destino de uma vida condenada à pobreza.
Famintos de tudo, atenuam a fome que continuam a sentir lá longe. Fome de afetos de filhos, mulheres e pais e, tantas e muitas vezes, pior do que aquela que se sente no estômago e se acumula no corpo cada vez mais anguloso.
Mais umas horas extra, mais um dinheiro de parte significa mais um terreno, mais um apartamento, a casa dos sonhos na terra natal, Tudo isso, lá longe, minimiza as saudades imensas, as humilhações diárias e o trabalho árduo.
Por vezes, o alivio chega: as linhas escritas pela vizinha da mãe que fez a quarta classe, os telefonemas rápidos e fugidios com vozes que se atropelam a tentarem esconder a emoção (porque foram ensinados a ser fortes e não estão em tempo de fraquezas), a foto a preto e branco dos filhos e da esposa cuidadosamente vestidos e muito direitos em pose estudada. Nesses momentos, alheiam-se de tudo o que os rodeia e conseguem ser, de novo, pais, filhos e maridos. Esquecem aquelas rugas, aqueles cabelos brancos que se acumulam e que o espelho insiste em mostrar. Onde estão eles? Onde se perderam no meio daquela gente que fala uma língua estranha? Onde gastaram a vida e o tempo? Por tanto quererem lá longe limitaram-se a sobreviver aqui, a ver passar os dias.
Finalmente, chega o ansiado Verão, o mês de Agosto e é tempo de regressar. Já foram feitas as contas aos proveitos do ano amealhados até ao centavo e sobrou o suficiente das poupanças para o bilhete de autocarro, comprado e religiosamente guardado, e os poucos pertences já no interior das malas, gastas de tantos quilómetros percorridos. Desvanecem-se as rugas e os cabelos brancos e Portugal está tão perto.
Mas logo acaba o mês e o filho que teima em chorar, a mãe que pede não vás e a mulher que sofre calada. E lá longe, sempre o mesmo: uma realidade dura, um país frio e uma solidão desoladora. Partem e lutam, sempre, sem hesitar.
São emigrantes, aos milhares
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